Enquanto todos saboreavam carnes fritas no conforto do lar, Gerson Silva – mecânico – perambulava pelas ruas de sua cidade natal.
Chutava tampinhas, chorava e rogava pragas diversas. “Charfundem todos na lama, miseráveis!”, gritava o infeliz mecânico.
Nada estava correto em sua vida. Gerson Silva agnava certas coisas tão peculiares como descascar limões usando uma lixa de unha. Era motivo de chacotas por causa disso? Claro que não. Porém eram tantas as afrestações que o terneavam e espurravam sua dignidade para o limbo.
Gerson chegou ao cúmulo de pedir uma escova de dentes emprestada para Sílvio, o mendigo local.
Sílvio nem sempre foi um mendigo. Esculpia e vendia suas belas estátuas feitas com feijão branco. Eram um sucesso indescritível. Turistas de toda a parte do mundo visitavam a cidade apenas para comprar uma estátua feita de feijão branco. Época de fartura e luxúria. Porém tudo mudou quando o inverno de 1976 chegou. Todos se trancaram em seus porões e nunca mais ninguém comprou uma estátua feita de feijão branco. Sim, Sílvio perdeu seu ganha pão e a miséria o abraçou.
Gerson limpava o nariz com a manga esquerda de sua camiseta, quando percebeu uma luz estranha vindo em sua direção. “Não pode ser!”, pensava.
Involuntariamente, Gerson começou a dançar. Freneticamente, gingava com passos descolados e modernos. Parecia que Gerson participava de algum videoclipe daquela popstar loira com seios fartos que tanto o agradava.
Gerson dançava e chorava. Grandes doses de ranho escorriam de seu nariz que outrora havia sido limpado. Lhações, grandes lhações ocorriam naquele grandioso momento. Um espetáculo audivisual só antes visto durante o show da banda Magnammus Brukläsque, cujo principal hit foi “Don’t Kiss My Dead Grandpa”.
Duas horas da tarde, Leandro entra na oficina e olha um cartaz em que Savannah Love – famosa estrela pornô da década de 70 – está deitada em cima de um tigre de pelúcia. Ele tosse duas vezes e chama a atenção de Gerson.
“Bom dia, amigo cliente. Em que posso ajudar?”
“O meu Maverick está com problemas no motor. Você quer dar uma olhada?”, diz Leandro.
“Sinto, não posso. Eu não posso!”, retruca Gerson.